Ex-alunos, amigos e familiares se despedem de inspetoras mortas em ataque a colégio no Acre
06/05/2026
(Foto: Reprodução) Marido de inspetora morta em ataque a colégio no Acre fala sobre dor da perda
Familiares, amigos e ex-alunos se despedem das inspetoras Alzenir Pereira da Silva, de 53 anos, e Raquel Sales Feitosa, de 36, mortas durante o ataque a tiros no Instituto São José, em Rio Branco.
O velório de Raquel ocorreu na capela da Funerária São João Batista e o enterro às 17h no Cemitério Morada da Paz. O corpo de Alzenir foi velado na casa da mãe dela, na Rua Triunfo, bairro Cidade Nova, e o sepultamento ocorreu às 16h30 no Cemitério São João Batista.
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"Vai ser inesquecível para todas as pessoas que conviveu com ela. Nunca teve treta com ninguém, sabia lidar com todo tipo de situação. Morreu para salvar vidas. Não sei como é que vai ser da minha vida agora para frente", falou abalado o marido de Alzenir, Roberto Bernardo.
As duas inspetoras, uma aluna, de 11 anos, e outra servidora do colégio foram baleadas nessa terça (5). Os feridos foram levados para o pronto-socorro da capital e receberam alta no mesmo dia. A polícia confirmou que o suspeito é um aluno do colégio, de 13 anos, que entrou armado na escola e foi apreendido após os disparos. A arma é do padrasto dele.
Alzenir Pereira era inspetora no Instituto São José, em Rio Branco
Arquivo pessoal
Alzenir e Roberto eram casados há 33 anos, têm dois filhos e sete netos. Ele contou também que a esposa amava o que fazia e era uma profissional dedicada e amada por todos.
"Tudo que ia fazer usava a profissional. O amor, o carinho, tudo que ela fazia era com amor, sem pedir nada e troca. Nunca cobrou nada, sempre fez de coração. Não importa se a pessoa ir retribuir pra ela, não importava", complementou.
Enterro de Raquel Feitosa foi marcado por comoção nesta quarta-feira (6)
Amanda Oliveira/Rede Amazônica Acre
Kayenne Victoria, de 23 anos, estudou no Instituto São José até 2020 e conviveu com a tia Zena, como Alzenir era carinhosamente chamada.
"Era uma pessoa boa, que acolhia a gente, era uma tia. Estudei naquele colégio durante 13 anos, mesmo depois de formada, a gente receber essa notícia, foi algo muito duro. Mas, a memória que temos dela é de uma pessoa amorosa e que se doava por completo", recordou.
Amiga de infância de Alzenir, Madalena de Lima, de 54 anos, também era vizinha da inspetora. "Nasci e me criei aqui ao lado da casa dela, era uma pessoa maravilhosa, estava sempre presente, uma boa filha, boa mãe, esposa. Pelo que sei, ninguém tem queixa dela, participava de tudo, dava atenção a todos, sempre sorrindo, resolvia tudo lá", falou.
Amigos e familiares acompanharam o enterro de Alzenir Pereira no Cemitério São João Batista
Amanda Oliveira/Rede Amazônica Acre
Amigas prestaram homenagens
Estudante do último período do curso de enfermagem, Raquel trabalhava há cinco anos na escola e sonhava em terminar o curso e começar a trabalhar na área da medicina.
Um grupo de estudantes foi de jaleco para o velório como forma de homenagear a amiga. Raquel era casada e tinha um filho de 7 anos.
Raquel Feitosa (de óculos ao fundo) e amigas estava no último período do curso de enfermagem
Arquivo pessoal
Muito abaladas, as amigas de Raquel relembram que ela era uma pessoa alegre, descontraída e com um coração bom. Ao g1, Valéria Mendes contou que Raquel estava na fase final do curso, elaborando o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
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"Na próxima semana a gente ia se reunir com a professora para a correção. Nosso grupo do TCC sou eu, a irmã dela, Raiane, e a Karem. Nossa tema é sobre lavagem das mãos", contou.
Colegas de faculdade prestam homenagens a servidora morta em ataque a colégio no Acre
Ainda conforme a estudante, Raquel tinha se reunido com as amigas na noite anterior para falar sobre o projeto de conclusão de curso.
"O sonho dela era terminar a faculdade, sair da educação e arrumar um emprego na área da enfermagem", destacou.
Mesmo com uma rotina cansativa, dividida entre trabalho e faculdade, Valéria destaca que Raquel estava sempre alegre e não tinha tempo ruim para ela. "Mesmo cansada sempre tava sorrindo, nosso grupo tinha um foco: todas juntas até o final. Esse nosso grupo é desde no início da faculdade e todas davam força uma para outra", disse emocionada.
Estudantes foram de jaleco para velório como forma de homenagear servidora morta
Jhenyfer de Souza/g1
Cena de terror
Servidores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também estiveram no velório de Raquel para prestar homenagens. O socorrista Averiraldo Azevedo participou do resgate aos feridos dentro do colégio e esteve no velório.
Ao g1, ele descreveu a cena encontrada dentro da escola como terror. Para ele, foi a cena mais impactante que presenciou em 22 anos de profissão.
"Disseram que as vítimas estavam no segundo andar e fomos entrar no prédio, a Polícia Militar estava presente e fez o suporte pra nós. Quando subimos encontramos a arma e os corpos das duas profissionais. Nossos profissionais começaram a agir, mas, infelizmente, não pudemos fazer nada", relembrou.
Após confirmar as mortes, o socorristas conta que os profissionais se concentraram em atender os estudantes.
"A comoção era muito grande, um desespero dos estudantes e ficamos ali acalmando até os pais chegarem. Cada pai que chegava era uma dor. Não somos de ferro, sentimos dor e nos juntamos hoje para fazer essa homenagem a essa guerreira porque, graças a ela, muitos pais estão com os filhos", lamentou.
Ataque ocorreu no Instituto São José, que fica no Centro de Rio Branco
Foto/Arte g1
Ataque em colégio
O ataque ocorreu no início da tarde dessa terça-feira (5) no Instituto São José, uma escola de Rio Branco conveniada ao Estado. O g1 apurou que os alunos do turno da tarde já estavam em aula quando ouviram os disparos.
Ainda conforme os sobreviventes, os alunos ficaram muito assustados no momento do ataque, se jogaram no chão e tentaram fazer barricada com cadeiras.
Equipes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foram as primeiras a chegar ao colégio. No local, o comandante da corporação, coronel Felipe Russo, confirmou a morte das servidoras e a situação das duas pessoas feridas, uma aluna de 11 anos e uma servidora de 40.
Durante coletiva de imprensa, a comandante-geral da PM-AC, coronel Marta Renata, explicou que agentes que atuam no Centro da capital acreana comunicaram sobre a emergência por meio de um grupo de mensagens, momento em que a primeira guarnição foi mobilizada.
Contudo, quando os policiais chegaram, o adolescente já havia deixado o local. O aluno se entregou no Comando-Geral da PM, a cerca de 550 metros do colégio.
Ataque a tiros em escola no Acre deixa duas servidores mortas e alunos feridos
O ataque causou comoção e tristeza no estado. O governo estadual e Prefeitura de Rio Branco decretaram luto oficial de três dias. Como medida de segurança, as aulas nas redes pública e privada foram suspensas até sexta-feira (8).
O Ministério da Educação (MEC) determinou o envio de especialistas do Programa Escola que Protege ao Acre após o ataque.
O padrasto do adolescente foi preso após se apresentar no colégio e assumir ser o dono da arma usada no crime. Ele foi solto ainda na terça após assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). A informação foi confirmada nesta quarta (6) pelo diretor-geral da Polícia Civil, Pedro Paulo Buzolin.
O delegado-geral confirmou que a polícia vai trabalhar com duas linhas de investigações: uma para apurar o ato infracional do adolescente e outra para investigar a falta de cuidado que o padrasto teve na guarda do armamento.
O Ministério Público Estadual (MP-AC) confirmou que 4ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente pediu a internação do adolescente à Justiça.
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